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Brasileiro que ganha salário mínimo precisa trabalhar 1 mês e meio para pagar aluguel

Publicada em: 02/03/2025 20:48 - Notícias

Os brasileiros que recebem um salário mínimo precisam trabalhar em média 44 dias para pagar o aluguel. O levantamento, feito pelo R7 com base nos dados do Índice FipeZAP, que monitora o preço cobrado na locação em 36 cidades, mostra que um imóvel de 45m², semelhante ao do Minha Casa, Minha Vida, custava em média R$ 2.062,35 em 2024. Em contrapartida, o salário mínimo recebido pelo trabalhador era de R$ 1.412. Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam o descompasso entre a remuneração do brasileiro e o valor pago nas parcelas de aluguel.

Os dados levantados pela reportagem demonstram uma redução no impacto do aluguel na renda do trabalhador desde 2015. No começo da série histórica, o indicador monitorava apenas nove cidades brasileiras. Naquele ano, o valor médio de um imóvel de 45m² era R$ 1.498,95, o equivalente a 57 dias de trabalho.

Doutor em economia e professor da Universidade Mackenzie, Hugo Garbe avalia que, apesar de os dados parecerem positivos para o trabalhador, na prática, essa percepção de redução do impacto nem sempre é sentida pela população. Ele afirma que, embora o salário mínimo tenha crescido acima da inflação em alguns períodos, o custo de vida também aumentou — e, em muitos casos, de forma mais agressiva.

“Alimentos, transporte, energia e outros gastos essenciais pressionam a renda das famílias, muitas vezes anulando qualquer ganho real. O aluguel pode até ter ficado um pouco mais acessível, mas isso não significa que os brasileiros estejam vivendo melhor”, explica.

Vale lembrar que, segundo dados do Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticade 2022, um em cada cinco brasileiros (20,9%moram em residências alugadas.

 

O especialista em mercado imobiliário Heitor Kuser descreve que o valor do aluguel, especialmente de quem tem baixa renda, requer uma composição da renda familiar para conseguir honrar com esse compromisso. “Ao longo do tempo, o valor do aluguel pode ter diminuído, mas quem aluga tem visto valores fora da realidade, portanto, a percepção não é de redução”, explica.

Para o especialista em setor imobiliário Daniel Claudino, políticas de Estado — como o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida — aumentaram a oferta de imóveis para aluguel.

 

“Subsídios e incentivos fizeram com que as opções deste setor econômico tivessem o preço dos imóveis desacelerado. É importante observar dois aspectos neste estudo: muitos imóveis menores (45m² ou menossofreram enorme valorização dos aluguéis, principalmente na cidade de São Paulo, por se tratarem de estúdios e lofts. Ou seja, se retirarmos estes itens do estudo, o valor do m² de locação será ainda mais modesto”, analisa.

Ele explica que o Brasil vive atualmente um cenário de escassez de estoque e oferta de imóveis para locação. Há uma valorização do valor médio dos aluguéis. O especialista conta que, no mercado imobiliário, o retorno sobre um imóvel destinado para aluguel é calculado considerando dois aspectos: a valorização do imóvel ano a ano e o valor do aluguel sobre o valor de venda.

 

“No segundo caso, para calcular a taxa de retorno do imóvel, você divide o valor do aluguel pelo valor estimado do imóvel se fosse vendido. Então, em um imóvel residencial de R$ 2.500 de aluguel e valor de venda de R$ 1 milhão, você teria um retorno mensal sobre o ativo de 0,25%”, exemplifica.

Para Claudino, é necessário um “equilíbrio” entre oferta e demanda, mas, segundo ele, a taxa básica de juros, a Selic, e a inflação da construção civil desestimulam incorporadoras e construtoras a construírem novas unidades habitacionais, o que aumenta o déficit habitacional.

Na avaliação de Leonardo Guerra, também especialista do setor imobiliário, outros fatores também podem ter contribuído para a redução do impacto do aluguel no salário do trabalhador.

 

“O salário mínimo teve reajustes acima da inflação em alguns anos, reduzindo o peso relativo do aluguel. E temos a alta da taxa de juros. Com os juros elevados, muitas pessoas que poderiam financiar a compra de um imóvel optam por permanecer no aluguel. Além disso, investidores que antes comprariam imóveis para revenda preferem manter seu capital aplicado, pois a rentabilidade das aplicações financeiras supera o custo do aluguel em algumas situações. Isso acaba aumentando a demanda por locação e mantendo os preços em alta”, diz.

Alternativas para driblar os custos

Diante dessa realidade, muitas famílias precisam encontrar alternativas para encaixar o aluguel no orçamento. É o que explica Hugo Garbe. Segundo ele, alguns optam por dividir moradia, buscando companheiros de quarto ou voltando a morar com parentes. Outros mudam para bairros mais afastados, o que pode significar mais tempo e custo com transporte. “Há também aqueles que acabam comprometendo gastos essenciais, cortando lazer, alimentação e até saúde para manter um teto”, destacou.

 

Ele afirma que a valorização do salário mínimo, por si só, não resolve o problema da moradia. “Além disso, mesmo que o mínimo suba, se outros custos essenciais aumentarem na mesma proporção, o efeito positivo se dilui”, reitera.

Daniel Claudino reforça que a divisão das despesas com outros moradores com renda é um auxílio para viabilizar o pagamento do aluguel. “Dados do Ministério das Cidades apontam que os imóveis da Faixa 1 do programa Minha Casa, Minha Vida, destinados a pessoas que recebem até R$ 2.640 de renda mensal bruta, são ocupados geralmente por duas pessoas, enquanto as faixas 2 e 3 — de quem recebe entre R$ 2.640 e R$ 8.000 — contam com 2 a 4 moradores, o que traz uma perspectiva mais otimista na hora de fazer o orçamento familiar”, completa.

Mudanças culturais

Claudino acrescenta que há uma mudança cultural na sociedade. Em 2010, segundo o Censo do IBGE, 16,4% da população morava de aluguel, enquanto em 2022 esse número chegou a 20,9%. Na avaliação dele, a dificuldade de compra de um imóvel e o estilo de vida mais fluido e nômade das novas gerações são os principais motivos dessa mudança. “Muita gente jovem tem influenciado essa média para cima”, diz.

 

Segundo Kuser, as novas gerações não gostam da ideia de ficar pagando um imóvel por 20 anos, como seus pais e avós faziam. “Não é o mercado que direciona, mas as condições, desejos e anseios de quem procura um lugar para morar”, avalia.

Burocracia

Para Luciane Leite da Silva, 32 anos, técnica em segurança do trabalho e moradora de Ceilândia, no Distrito Federal, além do preço do aluguel, um dos desafios é a burocracia para alugar um imóvel.

“Minha procura por aluguel foi demorada, foram quase dois anos. Eu precisava de um lugar já mobiliado ou semimobiliado e coloquei como requisito cidades como Guará, Taguatinga e Águas Claras. Tive que pesquisar muito para encontrar. Ainda pretendo ir para o Guará, mas sei que terei que entrar na jornada da pesquisa, de pechinchar preço, de lidar com muita burocracia quando for com imobiliária. É muito burocrático alugar um imóvel hoje”, afirma.

 

Atualmente, ela paga R$ 1.350 de aluguel em um imóvel de três cômodos e considera o valor “superfaturado”. “Moro de aluguel há oito meses e tenho um contrato de um ano com o locador. Já sabia que seria um preço um pouco caro nessas localidades, mas, para a minha surpresa, estava superfaturado”, relata

Perspectivas para o futuro

Sobre as expectativas para o futuro imobiliário, Garbe destaca que a situação dos aluguéis vai depender de como a economia se comporta nos próximos anos.

Segundo ele, se os salários continuarem crescendo acima da inflação e houver incentivos para a construção de novas moradias, podemos ver um alívio para os inquilinos. “Mas, sem mudanças estruturais, o peso do aluguel continuará sendo um desafio para boa parte da população”, explica.

O professor avalia que o que pode fazer real diferença nesse cenário são políticas públicas mais estruturadas, como o incentivo de programas habitacionais, facilitação do acesso ao crédito imobiliário e melhoria do transporte público para reduzir a necessidade de morar perto dos centros urbanos e até criar incentivos para novos empreendimentos de aluguel.

 

“São algumas soluções possíveis. Além disso, a geração de empregos melhor remunerados também é essencial para que as pessoas tenham mais autonomia financeira”, conclui.

Fonte R7

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